Teatro do Oprimido Do Oprimido
Bárbara Santos[1]
Estive duas semanas em Portugal. Porto e Lisboa. Cidades lindas, charmosas, receptivas. Do centro histórico do Porto até o bairro da Cova da Moura, em Lisboa, a percepção da arquitetura, da culinária, da simpatia, do racismo difuso e de um certo complexo de inferioridade pareceu-me familiar.
O Teatro do Oprimido foi o meio de transporte. Em duas semanas: mostra de espetáculos, painel de discussão, visita a duas comunidades, seminário teórico, workshop de Teatro-Fórum, supervisão de multiplicadores e Laboratório Madalena.
A convite do PELE[2], que sedia o Núcleo de Teatro do Oprimido – NTO-Porto, participei do Encontro de Arte e Comunidade, de 21 a 27 de Novembro de 2011, no Porto. Tive a imensa satisfação de constatar que o Teatro do Oprimido que está sendo feito em Portugal é Do Oprimido.
No Porto, assisti produções teatrais de diversos grupos – jovens, mulheres, trabalhadores, idosos – e corajosas atuações de Curingas[3] comunitários, que estimulavam platéias super-lotadas a discutir problemas da vida cotidiana e a buscar alternativas de superação. Produções bem cuidadas representavam temas urgentes. Grupos de oprimidos ocupavam o centro do palco, usavam corpos, vozes e criatividade para expressar opiniões, idéias e dúvidas.
Tanto no seminário teórico quanto no workshop que ministrei, no Porto, a presença de representantes desses coletivos teatrais demonstrava o profundo compromisso com o desenvolvimento comunitário. A gente das comunidades partilhando sua rica experiência com trabalhadores sociais, praticantes e estudiosos do Teatro do Oprimido. Um ambiente respeitoso e criativo, que refletia uma visão arrojada da necessidade de investir na formação de multiplicadores locais para garantir autonomia de percurso.
Na discussão sobre o Teatro do Oprimido em Portugal pôde-se constatar a vitalidade do trabalho de José Soeiro e do grupo Estudantes por Empréstimo, através do Teatro Legislativo e de ações concretas. E saber que também em Algarves se avança na criação de grupos comunitários.
Em Lisboa, com a equipe do GTO-Lx[4], realizamos a segunda supervisão específica voltada para a qualificação de multiplicadores dos grupos comunitários, com o objetivo de garantir a autonomia desses coletivos. Os encontros aconteceram na Cova da Moura, bairro com majoritária presença de migrantes africanos, onde se faz Teatro do Oprimido há mais de 5 anos.
No final de semana, o Laboratório Madalena reuniu mulheres que são familiares dos jovens que integram os grupos comunitários do GTO-Lx e representantes de organizações de defesa dos direitos da mulher. Diversidade de experiências que revelou profundas identidades.
Me lembro de ter estado em Portugal em 2006 para o seminário Educar o Outro[5], realizado em Coimbra, a fim de apresentar o projeto Teatro do Oprimido nas Prisões[6]. Nessa época, havia pessoas multiplicando o Teatro do Oprimido, as quais tinham participado do workshop de Teatro-Fórum realizado no Fórum Social Português, em 2005, ministrado por Helen Sarapeck e Geo Britto, do CTO[7]. Na mesma época, em Lisboa, Gisella Mendoza plantava as primeiras sementes do GTO-Lx.
Agora, em 2011, constatei a potencia da difusão do Teatro do Oprimido em Portugal. Mais que isso, a vitalidade de uma prática comprometida com os fundamentos do Método, que está sendo aplicado a partir de suas raízes e visando à produção de ações concretas. Conheci Curingas comprometidos com o trabalho comunitário. Artistas sendo ativistas. Participei de discussões teóricas alimentadas por experiências práticas.
Entre o Porto e Lisboa, testemunhei a prática do Teatro do Oprimido Do Oprimido, no qual a definição de Curinga está diretamente associada ao trabalho com grupos de oprimidos. A prática do Fórum visa à transformação da realidade. A descoberta coletiva é o grande espetáculo. Nessa prática, não há espaço para a personificação de talentos individuais, mas sim para a celebração das potencialidades de cada um dentro da obra coletiva.
No Teatro do Oprimido, que é realmente Do Oprimido, ao invés da indústria de workshops catárticos de auto-ajuda visando a consumidores especiais, da psicologização e individualização dos problemas, da valorização do artista singular, celebramos a produção coletiva, a análise investigativa, a organização da luta, a transformação da realidade.
Desde que Boal passou por Portugal, em meados da década de 1970, foram necessárias mais de três décadas para o Teatro do Oprimido se estabelecer no país. A boa notícia é que esta prática está se consolidando em bases comunitárias. Desejo que esse seja o alicerce para mais um movimento do Teatro do Oprimido.
Viva Boal!
[1] Socióloga, atriz e Kuringa do Teatro do Oprimido. Coordenadora do Centro de Teatro do Oprimido até 2008, trabalhou com Augusto Boal por duas décadas em produções artísticas e na pesquisa/concepção de técnicas teatrais como o Teatro Legislativo e a Estética do Oprimido. Uma das idealizadoras do Laboratório Madalena – Teatro das Oprimidas, inovadora experiência estética sobre as especificidades das opressões enfrentadas pelas mulheres. Desenvolve pesquisas na área da Estética do Oprimido e do Arco-íris do Desejo (conjunto de técnicas introspectivas). Diretora artística do espaço KURINGA (Alemanha) e editora da revista Metaxis (Brasil). barbarasantos@kuringa.org
[2] Espaço de Contato Social e Cultural http://www.apele.org/site/
[3] Facilitadores do dialogo entre palco e platéia na busca de alternativas para o problema encenado.
[4] Grupo de Teatro do Oprimido GTO-Lisboa http://www.facebook.com/GTOLX
[5] Seminário Nacional 8 e 9 de Março de 2006, Educar o Outro – as questões de Gênero, dos Direitos Humanos e da Educação nas Prisões Portuguesas.
[6] Projeto realizado de 2001 a 2006, no sistema penitenciário de dez estados brasileiros, em mais de uma centena de presídios, pelo Centro de Teatro do Oprimido, com financiamento do Ministério da Justiça e adesão de dez Secretarias Estaduais. Direção artística de Augusto Boal e coordenação de Bárbara Santos.
[7] Centro de Teatro do Oprimido www.cto.org.br
Olá Bárbara
ReplyDeleteDa minha parte só tenho a agradecer a disponibilidade que sempre demonstraste, os ensinamentos e orientações que transmitiste.
A PELE, em especial o Hugo, com quem fiz a iniciação ao teatro do oprimido (a melhor experiência da minha vida); e a Maria João, que desenvolveu todo o trabalho com o grupo aqui em Ronfe, mudaram a minha vida, em vários aspectos. Foi com eles que descobri o método e, mais do que isso, que descobri que era este o caminho que eu queria seguir.
Os workshops contigo foram extremamente importantes para aprofundar conhecimentos teórico-práticos e para tentar perceber e assimilar alguma da tua vasta experiência.
Fizeste com que hoje eu me sinta mais confiante e capaz no desenvolvimento do trabalho com o grupo de T.O. na minha instituição.
Obrigado por tudo!
Nuno
Nuno, foi uma experiência ímpar. Muito bom testemunhar a alegria do trabalho. Forte abraço!
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